GNOSIOLOGIA FILOSÓFICA*
Riccardo Fenizia
O tema está dividido em quatro capítulos, sendo o primeiro uma introdução geral ao problema do conhecimento; a segunda parte trata do tema da possibilidade de conhecer a verdade, de que o homem é capaz; na terceira são analisados os conceitos de verdade e certeza que, longe de serem idênticos, apresentam diferenças notáveis; enquanto o quarto e último capítulo investiga o significado filosófico do senso comum, que não é senso comum. A complexidade do tema e a quantidade de problemas que suscita exigem que sejamos claros e lineares na nossa exposição.
1. Introdução
1.1 O problema do conhecimento Em primeiro lugar, convém esclarecer que, no período clássico e medieval, a filosofia do conhecimento ou gnoseologia (este termo é, aliás, moderno) foi incluída entre os problemas da metafísica, como o estudo do ser em geral, da substância ou entidade como uma entidade. A lógica, a busca dos fundamentos do conhecimento e a análise psicológica das formas de conhecimento do homem sobre a realidade devem ser colocadas nesta área. Neste contexto, não só não se questionou a capacidade de conhecimento do homem, como se refutou as filosofias de fundo cético ou sofístico, superando a chamada opinião para um fundo objetivo de conhecimento da realidade. Basta pensar em Sócrates, Platão, Aristóteles e, na Idade Média, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Não havia conflito entre ciência, filosofia e teologia; com efeito, a suprema ciência ou metafísica encontrou o seu ápice na teologia natural que, por sua vez, foi enriquecida com a revelação cristã, numa nova harmonia entre razão e fé, distinguindo a razão natural da razão iluminada pela fé sobrenatural. Ao contrário, na modernidade, assistimos a uma deriva da filosofia para posições de matriz subjetivista em que já não é a realidade - o ser das coisas - que dá a medida do conhecimento ao homem, mas é o próprio homem que se coloca como uma medida de conhecimento das coisas, até a visão idealista do ego puro como criador da realidade. A modernidade suscita, assim, uma crítica ao conhecimento tal como era entendido na antiguidade, inaugurando, mais especificamente com Kant, mas aliás já com Ockham, uma crítica que nos propomos a refutar por sua vez, julgando-a uma atitude "antifilosófica", porque nega na raiz, sem justificação adequada, como veremos, a possibilidade de conhecer a verdade das coisas, o que constitui o próprio fim da filosofia.
1.2. Guglielmo de Ockham e Cartesio
A história das ideias nos ajuda a identificar alguns momentos significativos, que ajudam a compreender melhor o processo que levou a gnoseologia a concentrar as pesquisas filosóficas no setor da crítica do conhecimento, assimilando gradualmente as demais áreas da filosofia. Uma das etapas, do ponto de vista histórico e filosófico, que marca uma viragem na história da cultura, a nosso ver, remonta ao século XIV e pertence a Guilherme de Ockham (1280-1349). A corrente nominalista, da qual Ockham é um dos iniciadores, não vê correspondência entre os nomes e a essência das coisas, mas atribui aos nomes uma natureza vazia. O resultado é acreditar que o conhecimento não atinge a profundidade real das coisas, sua essência, mas é bastante convencional. Os universais não teriam fundamento na realidade, mas seriam construções do sujeito cognoscente. Indicativo, a esse respeito, é a frase de Ockham «nihil cognoscitur nisi cognoscatur intuitivo», que revela um único modo de conhecer: o imediato e não discursivo da intuição. Isso contradiz as evidências que temos do processo cognitivo, que é discursivo e cansativo, trabalhoso, que compõe e divide para chegar à verdade. Em outras palavras, critica-se a atividade cognitiva do homem, que consiste na capacidade de abstrair a essência das coisas extramentais da imagem sensível por meio do intelecto produtor iluminado pela luz do intelecto ativo. Através da continuidade entre o conhecimento sensível e o conhecimento intelectual, chegamos ao conceito expressivo de forma que torna inteligível a única forma-matéria. Estes são juntos princípio da substância. Vejamos agora os termos do problema depois de Ockham: quebra-se a unidade do processo cognitivo [realidade extramental-sentidos-intelecto dos primeiros princípios-razão e vontade como apetite racional] e o conhecimento reduz-se a apenas experiência sensível ou apenas representação mental ; a continuidade entre conhecimento sensível e conhecimento intelectual é negligenciada. A realidade - que é uma -, apesar da riqueza de pontos de vista, duplica-se artificialmente: Matéria/Pensamento. A cisão entre intuição sensível e intuição intelectual gera dois reducionismos: o empirismo e o racionalismo. Esta última corrente é notada especialmente em Descartes, que, por meio da dúvida metódica, colocou o cogito antes do ser, quase como seu fundamento. Com ele começa aquele processo que levará a filosofia, com o idealismo em particular, a conceber um puro criador do ser, não apenas o fundamento do pensamento, e tal que se identifique com o próprio ser; na verdade, a polêmica sobre o ateísmo e a virada de Ficht partem da confusão-identidade entre o Conhecimento e o Absoluto. O Deus de Descartes torna-se um Deus que se mistura cada vez mais com o mundo panteísta. De Descartes deriva a quebra da harmonia 'alma-corpo' com o nascimento do dualismo 'res cogitans-res extensa', totalmente contrário à união psicofísica do homem própria do pensamento de São Tomás. Para este último não há uma alma em um corpo, mas um corpo cuja forma substancial é a alma, de modo que o que existe é o homem, uma coisa e não duas. O dualismo é apenas o outro lado da moeda, o produto da fratura gnoseológica entre o intelecto e os sentidos. A perda da unidade do processo cognitivo, ocasionando a perda do sentido da realidade, tem levado gradativamente a uma crítica exagerada; a crítica sistêmica constitui um erro porque não há razões fundamentadas para criticar, incorrendo na falta de rigor e caindo no preconceito. As razões fundadas devem ser buscadas no ser das coisas, na evidência que para o homem é antes de tudo evidência sensível.
1.3. Conclusão
Para concluir, o relativismo gnosiológico impossibilita a confiança no conhecimento da verdade e em um fundamento ético comum sobre o qual basear o discurso entre homens que ficam apenas com a persuasão retórica e a violência, das quais, sobretudo no segundo caso, o século XX oferece tristes confirmações. A orientação, que nos propomos a seguir nas reflexões posteriores, é marcada por um realismo metafísico e é bem exemplificada por uma frase de um teólogo contemporâneo, G. Cottier, que escreve: «em filosofia é preciso ir às coisas, não ao pensamentos dos homens". Propomos assim retomar um discurso especulativo que, longe de se fixar em posições dogmáticas, se caracteriza também por uma atitude crítica e reflexiva, que é, no entanto, posterior a uma adaptação do intelecto ao ente real, de que é anterior e antes de conhecer a si mesmo. A intenção é equiparar a filosofia do conhecimento a uma metafísica da verdade, sem esquecer todos os limites ligados à realidade humana, que vê, porém, um pensamento conscientemente crítico e não crítico por preconceito. O ônus da prova recai sobre os que negam as primeiras evidências imediatas do senso comum, da experiência sensível e dela derivadas a partir do primeiro princípio. Se alguém afirma que ele e eu estamos sonhando, ele deve provar isso porque o próprio fato de ele falar comigo prova que nem ele nem eu estamos em um sonho e o fato de ele discutir isso prova sua capacidade de distinguir o sono da vigília. Quem nega a evidência sensível original exclui-se do caminho da verdade e isola-se na ignorância preguiçosa. Em vez disso, que estou acordado não é para ser provado, é apenas um reconhecimento inicial que noto evidentemente quando acordo de um estado de sono ou semi-sono. Mil dúvidas não fazem uma verdade. Sem a realidade externa não se pode nem duvidar, do que eu duvidaria?
2. A validade do conhecimento
Do discurso feito anteriormente é possível vislumbrar o significado ético dessa orientação, que, portanto, não deve se limitar a uma atitude puramente intelectual, mas deve envolver a própria vontade, conforme o famoso ensinamento platônico que vê nascer o conhecimento , o fogo divino, como centelha produzida pela comunidade de vida do mestre com os discípulos; a verdade deve ser cobiçada e amada, não apenas buscada intelectualmente; tão difícil é a sua busca, que exige um compromisso radical, existencial e total. Esses dois componentes, intelecto e vontade, são essenciais e indissociáveis entre si, tanto que questionar a capacidade de conhecer a verdade significa de alguma forma comprometer a possibilidade de uma vontade bem orientada. Se a verdade é incognoscível, como alguém pode agir bem; sem um ser bom, verdadeiro bem, pressuposto de toda pesquisa, a própria pesquisa não poderia ser considerada um bem. O Bem existe, Platão já o demonstrou e outros o confirmaram a partir não das ideias, mas das próprias coisas do mundo em que vivemos, através delas. Sua pesquisa requer o comprometimento de todo o homem, vontade e intelecto, imaginação, memória e fantasia. No entanto, como já vimos, as tentativas de se livrar dessa concepção têm sido bastante numerosas: pelo "kantianismo" e pelo "idealismo", colocando o ser das coisas entre parênteses, reduzindo-os respectivamente a construções da mente um e da mente outros como projeções do ego; por parte do ceticismo, pois, do pirronismo ao fenomenalismo de Enesidemo, à crítica do princípio de causa de Sexto Empírico, a corrente cética (do grego skèptomai = indago) é amplamente dividida em um tipo absoluto ou universal de ceticismo e um de tipo relativo que apresenta uma implicação prática marcada pela serenidade interior e sabedoria. Os argumentos avançados em defesa do princípio da epochè (suspensão do julgamento) baseiam-se principalmente na diversidade de opinião entre os homens; na ilusão dos sentidos; sobre a relatividade do conhecimento em relação a indivíduos, épocas, culturas; no círculo vicioso intrínseco ao processo de conhecimento em virtude do qual os primeiros princípios são indemonstráveis.
2.1. Sobre a diversidade das opiniões entre os homens
Em nossa opinião, o primeiro argumento não precisa de muita refutação. Ao contrário, parece-nos que ela o oferece por si só: afirmar que existem soluções contraditórias para um determinado problema que são questionáveis significa que estamos lidando com opiniões a serem verificadas ou com um problema mal colocado ou insolúvel como que uma opinião é tão boa quanto outra... é preciso então definir o problema e a opinião, pesá-los em relação às primeiras, indubitáveis, evidências obtidas do ser, então avaliar se a opinião é apenas tal, se é credível ou não, se é bastante admissível como uma verdade comprovada. É evidente que a confusão mental em que se encontra o cético, quando está de boa fé, está ligada à incapacidade de dar uma definição cuidadosa do problema posto e do significado dos termos que utiliza; muitas vezes é suficiente questionar o cético sobre o significado do que ele diz e ele mesmo dará uma resposta a si mesmo e aos outros, encontrando assim a verdade. Pode haver dez opiniões inconsistentes e uma verdade que não é uma opinião, sem mencionar o fato de que às vezes em algumas questões apenas duas opiniões são possíveis, por exemplo, Deus existe ou Deus não existe, ou mesmo Deus é um ser pessoal transcendente ou Deus funde-se com o ser da natureza. Em relação à questão de saber se existe verdade, mesmo apenas colocar um problema implica que alguém colocou "realmente" um problema "real", ou seja, implica que quem o coloca está em contradição, pois acredita secretamente na verdade. do seu problema e que seja assim também para aqueles a quem o coloca; a verdade é, portanto, pressuposta em seu discurso. Ora, afirmar uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo e do mesmo ponto de vista é delírio, loucura. Neste ponto, o cético é forçado a recorrer a pontos de vista particulares, ceticismo relativo e não absoluto: o absoluto nega que a verdade possa ser conhecida em qualquer caso e se contradiz porque fanaticamente apenas sua posição deve ser aceita a priori como verdadeira (isto é, que nenhuma verdade pode ser conhecida), que pelo princípio que ela impõe não pode ser baseada em nada verdadeiro. Teremos então de continuar caso a caso a criticar aquelas afirmações que extrapolam de casos particulares e sol.ucionáveis uma razão infundada e inconsistente para duvidar da possibilidade de conhecer a verdade mesmo quando esta é, pelo contrário, possível.
2.2. Sobre a ilusão dos setnidos
A ilusão dos sentidos surge como uma tese simplista que não considera o facto de estarmos conscientes quando os sentidos nos enganam, o que significa que os sentidos não nos enganam a não ser que queiramos ser enganados ou sejamos descuidados na interpretação das informações que eles nos dão. nos dão, sem falar que o erro poderia derivar de um defeito fisiológico do órgão dos sentidos e sobretudo que, em última análise, não é o sentido que conhece a verdade, mas o intelecto no juízo de cumprimento do 'ser do coisa: 'essa coisa aqui, vista e ouvida por mim, é um gato'. Pela mesma razão, a relatividade humana não conta, pois não é o sentido do homem que determina o conhecimento, mas o próprio objeto. Mais uma vez, que o conhecimento se refere a indivíduos, civilizações, povos e culturas diferentes no tempo e no espaço não é um impedimento para a busca da verdade, mas sim a condição pela qual todo cientista honesto sabe que deve evitar a influência distorcida das modas transitórias. medidas para demonstrar os méritos do que ele afirma. No entanto, há influências benéficas, decorrentes do pluralismo acima, que auxiliam na busca da verdade porque a co-presença de diferentes pontos de vista, a verdade é comum e inclui a beleza da variedade. O importante é não esquecer que são pontos de vista, e que esse fato pertence à verdade; o ponto de vista deve dar lugar ao que se descobre honestamente como uma verdade não subjetiva, ou seja, válida para todos os lugares e tempos; só neste caso o ponto de vista que se queria afirmar seria intolerante, injusto e totalitário, uma generalização indevida. São exemplos dessas verdades perenes descobertas pelo homem: a sacralidade e a dignidade da vida humana, a importância e a dignidade da natureza, alguns princípios matemáticos lógicos e outras ordens de verdades e certezas bem fundamentadas. A descoberta da verdade para o homem se dá através das condições subjetivas e históricas, mas também as transcende e as inclui: em termos modernos e imprecisos, pode-se dizer que o conhecimento objetivamente ocorre subjetivamente. O fato de ser o sujeito quem sabe não significa que seja impossível conhecer uma verdade objetiva válida para todos (pelo menos em princípio), significa apenas que, às vezes, por suas limitações, o sujeito nem sempre sabe tudo e imediatamente; pelo contrário, o homem está mais do que nunca apto e predisposto precisamente para o saber.
2.3. Sobre o círculo vicioso do primeiro princípio
O argumento do círculo vicioso, relativo à demonstração dos primeiros princípios, nos dá a oportunidade de citar a refutação de Aristóteles, que resolve o problema para sempre. O filósofo explica que quem tenta demonstrar o primeiro princípio ignora o que precisamos demonstrar e o que não precisamos demonstrar porque é o que serve para justificar a demonstração, toda demonstração. Mas onde está o primeiro princípio a ser encontrado? Onde ninguém pode jamais negá-lo e isso está na primeira e imediata evidência sensível, reconhecida pelo intelecto. Visto que é reconhecido na realidade, o primeiro princípio do ser e do pensar, é admitido e não provado. No entanto, pode-se usar uma forma de demonstração que consiste em mostrar que quem a nega necessariamente se contradiz. Ou seja, todos são obrigados a admiti-lo se quiserem pensar, mesmo para negá-lo devem usá-lo. É impossível viver sem viver, falar da vida sem poder falar, etc. Os primeiros princípios são indemonstráveis como verdades axiomáticas, reconhecidas pela experiência no ser das coisas e que são compreendidas assim que seus termos são conhecidos. Entre os referidos princípios está o chamado princípio da não contradição, o primeiro princípio que o próprio Aristóteles assim formula: «é impossível que o mesmo atributo, ao mesmo tempo, pertença e não pertença ao mesmo objeto e em a mesma relação». O raciocínio sofístico não serve para refutá-lo porque o próprio Aristóteles os previu e os tornou inúteis ao tornar o primeiro princípio explícito não como um genérico A = A, mas, como foi dito acima, com os acréscimos «neste momento e a partir deste ponto de vista» (uma coisa é igual a si mesma). De fato, Aristóteles previu que algum sofista poderia manipular o primeiro princípio confundindo os termos, pois é claro que o tempo é a medida do devir, de modo que o que é gato enquanto vive vira cinzas depois de queimado, mas enquanto é gato um gato é só isso e quando é cinza é só cinza. O primeiro princípio deve ser salvo ligando-o à evidência indiscutível da realidade extramental, "é assim agora e deste ponto de vista". Mas a realidade mental também respeita o primeiro princípio. Encontra-se, por assim dizer, no próprio ser, tanto o imutável quanto o devir. Julgamos, neste ponto, que o ceticismo revela, mesmo em suas nuances modernas, não uma modéstia intelectual, como poderia parecer, mas, ao contrário, a pretensão de dominar o conhecimento. O realista acredita nas suas próprias capacidades e nas dos outros e acredita, até prova em contrário, nas evidências fornecidas pela própria manifestação da realidade. O relativista, por outro lado, quer duvidar do que não se pode duvidar, e essa é a evidência sensível e os primeiros princípios que dela se podem deduzir, com inteligência e posterior reflexão. E dizemos "não se pode duvidar" porque o relativista é forçado a admitir com o realista a realidade das coisas evidentes antes que ele possa negá-las; e apenas verbalmente ele pode negá-los porque sua negação não se baseia em nenhuma evidência para apoiá-la.
3. Verdade e certeza
O processo cognitivo, entendido segundo a descrição que Aristóteles faz dele, parte justamente dos sentidos externos que captam a entidade provedora de informações sensíveis. Estes são organizados e referidos à entidade pelo sentido interno, que permite a formação de uma imagem sensível; dela o intelecto produtor, que pode conhecer, com a luz atual do intelecto agente, que ilumina, abstrai a espécie passando ao ato, produzindo precisamente o conceito que expressa a forma ou essência do ente conhecido. O sentido interno é necessário porque sabemos que os sentidos externos se limitam a registrar informações, cada um conforme sua estrutura, tato, dureza, visão, forma externa, cores, etc. A reflexão de Aristóteles foi analisada e reexposta de uma forma nova e original, experimente ler as suas obras, de Tomás de Aquino. Expressa-se a espécie impressa no intelecto, ou seja, o conceito é como que nascido por abstração do intelecto, desmaterializado dos dados sensíveis, para os quais a ideia resulta então com caracteres de universalidade e necessidade, transcendendo o espaço e o tempo, mas verdadeira expressão da o que está lá fora de mim. O intelecto humano é uno, mas por um lado está em ato, porque o ato precede a potência no ser, como uma luz que ilumina; por outro, graças à sua atualidade, pode atuar produzindo o conceito a partir do material fornecido pela sensibilidade, recebido do contato com a coisa fora de mim através dos sentidos externos. Como eu sei aqui e agora, se eu quiser saber, isso significa que o intelecto agente é minha posse pessoal, todo homem o tem, mas os órgãos dos sentidos ou o cérebro nem sempre funcionam corretamente devido a várias patologias e, dessa forma, constituem um impedimento para o conhecimento. Por fim, há um retorno ao fantasma, ou imagem sensível, como se dissesse: eu sabia exatamente essa coisa colocada diante de mim, então posso me lembrar. Todo o processo não é inicialmente consciente, mas torna-se consciente apenas mais tarde, através de um ato de reflexão que é, como já mencionado, a fonte do reconhecimento dos erros dos sentidos. O intelecto do homem é medido pelas coisas, pelo ser das coisas, enquanto o intelecto de seu criador mede o ser das coisas; eles são como ele os criou, não como nós queremos; nós também já somos constituídos, mas livres para aperfeiçoar a nós mesmos e ao mundo que nos cerca, inserindo-nos em um projeto que, evidentemente, já está em funcionamento, gostemos ou não. A intuição dos primeiros princípios é realizada por todo homem inteligente, ao menos implicitamente, e constitui a premissa de qualquer ciência ou discurso; qualquer raciocínio é, portanto, baseado em evidências experienciais, não na intuição de essências cartesianas, para então proceder pela mediação dos sentidos externos à descoberta gradual de formas inteligíveis abstraídas das imagens sensíveis das coisas que existem fora de nós. Nosso conhecimento, portanto, ocorre por meio de uma mediação. 3.1. Verdade ontológica e verdade lógica Neste ponto, uma definição de verdade é necessária. Pode-se falar de verdade em dois níveis inseparáveis: um ontológico (o ser das coisas) e um lógico (o ser das coisas em referência ao pensamento humano que as pensa e as diz como sendo). No primeiro caso nos referimos ao ser da coisa, que é inteligível por sua forma, por isso uma coisa é o que é. Tudo é verdadeiro porque é compreensível, mesmo que eu não entenda completamente, ainda entendo que algo tem inteligibilidade própria, há uma verdade nas coisas. Na verdade, posso não entender por ignorância ou incapacidade; daí a ininteligibilidade para mim. Com isso pretendemos expressar o fundamento objetivo da cognoscibilidade das coisas que são, reside no próprio ser das coisas que é em si inteligível segundo graus; O argumento é o quanto dessa inteligibilidade nós homens conseguimos apreender e de que maneira. Portanto, diz-se que a verdade é "adaequatio rei et intelectus", assim se expressa a relação entre o intelecto e a coisa conhecida. No entanto, o problema permanece: que intelecto é esse? origem e manancial. No primeiro caso, o do nosso intelecto, o intelecto do homem, que se mede pelas próprias coisas - mesmo para se conhecer a si mesmo, ele só se conhece conhecendo alguma coisa - a definição da referida verdade é correto, mas pode ser especificado «adaequatio intelectus ad rem», de modo a indicar mais explicitamente a dependência do intelecto do ser das coisas. Diferentemente, no segundo caso, o intelecto divino, visto que com livre arbítrio Deus cria tudo do nada, não se mede pelas coisas, mas mede-as, é a sua medida, são como Ele as pensa e as quer. No entanto, é claro que não sabemos através da matéria, mas por meio dos sentidos e com o intelecto por meio da forma inteligível, que organiza e informa a matéria. De fato, diante de uma coisa não dizemos "matéria", mas "essa coisa material (sinol, matéria-forma) é um livro (livro = forma)", ou seja, compreendemos a realidade não na singularidade dos indivíduos materiais (como poderíamos distinguir duas coisas juntas se fossem apenas matéria?), mas graças à forma que o intelecto abstrai da imagem sensível e que espelha a forma da coisa conhecida e assim identificada com a mediação de suas características acidentais, captadas com os sentidos externos. É propriamente a forma principal de inteligibilidade. É precisamente esta forma imaterial e intencional de possuir a forma que caracteriza o conhecimento humano, permitindo-lhe transcender o mundo sensível. Diz-se que 'ens', 'unum', 'verum', 'bonum' são transcendentais, no sentido nem idealista nem kantiano. Aqui, transcendental significa o que diz respeito ao ser como tal, em um sentido analógico, ao mesmo tempo criatural e divino: toda entidade como ela é não pode deixar de ser necessariamente dotada de pelo menos um grau mínimo de unidade, de verdade porque é inteligível, de bondade como palatabilidade. Os transcendentais do ser são conversíveis, ou seja, ser é verdadeiro, verdadeiro é ser, bom é ser e vice-versa, bom é um e vice-versa, e assim por diante. Não estamos falando aqui do aspecto moral de uma ação, mas da própria ação em seu ser; outra coisa é analisar a finalidade do mesmo, quem faz e porque faz. O nível lógico, por outro lado, indica a reflexão autoconsciente sobre o processo cognitivo descrito acima. Isso torna ainda mais claro que não podemos falar da verdade sem uma realidade pré-existente ou intelecto humano. Mas também não podemos ignorar um intelecto divino que pensou um ser inteligível tal como o conhecemos, a menos que possamos provar que o homem criou o universo. Portanto, definir a verdade como uma adequação entre o intelecto e a coisa esclarece dois aspectos importantes: o primeiro é o que é a sede da verdade, ou seja, o intelecto que a expressa, a verdade lógica, o segundo aspecto diz respeito ao fundamento pelo qual o homem pode expressá-lo, isto é, o ser das coisas, as próprias coisas; este último lado da questão pode ser observado a partir de dois pontos de vista, o nosso que deve adaptar-se às coisas - trata-se de uma perspectiva de fundamento gnoseológico - e o divino, originário - trata-se de uma perspectiva de fundamento ontológico - para nós misterioso , apontado indiretamente (teologia negativa) como certamente as coisas existentes na natureza são "como foram pensadas" não por nós, mas por alguém que é transcendente - a menos que sejam autoprojetadas, mas as coisas naturais já seguem seu projeto e as coisas que fazemos são o resultado da transformação (nós somos capazes de criar nada ou fazê-lo desaparecer no ar). Pode-se dizer que no processo de busca da verdade o homem não consegue separar o nível lógico do ontológico; a causa dessa unidade reside no fato de que o mundo com o qual o homem interage não é, do ponto de vista metafísico, criado por ele: a lógica não pode ser arbitrária porque as coisas já existem dessa forma e não de outra; porém isto não quer dizer que as coisas tenham uma necessidade absoluta, ao contrário poderiam ser diferentes de como são, mas - de fato - ora e ora são assim e não de outra forma, há portanto uma necessidade secundária, fundada em outra , ao qual estamos ligados se quisermos saber, de modo que nós mesmos somos responsáveis por uma possível falta de conhecimento se negligenciarmos o vínculo intelecto-coisas. Para dizer falsidade, precisamos de uma referência ao ser das coisas, que são verdadeiras na medida em que são inteligíveis. Sem o verdadeiro não se pode dizer o falso, que é uma deficiência, uma falta de verdade, sem alvo não é possível errar o alvo. Ao contrário, pode-se dizer a verdade, acertar no alvo, sem necessidade de falsidade... A lógica tem fundamento ontológico, metafísico. Não se pode raciocinar sem referência ao ser, tanto raciocinando segundo verdades quanto cometendo erros de raciocínio. Tampouco há apenas razão ou intelecto humano, como foi demonstrado. Mesmo a existência da razão é descoberta apenas na e com a relação com o ser do mundo circundante, pela reflexão.
3.2. Quando os termos de um problema não estão bem definidos: verdadeiro e falso Deus No decorrer da história da filosofia, especialmente moderna e contemporânea, esse intelecto divino foi muitas vezes inicialmente negado, para depois ocultar a capacidade criativa do homem, mantendo uma pseudo-teologia na filosofia, mas na verdade confundindo indevidamente Deus e homem , ser criatural e ser divino, intelecto humano e intelecto divino ou intelecto angélico. A polêmica impediu uma certa cultura de refletir seriamente sobre os limites do homem; excluindo qualquer visão transcendente, essa cultura projetou então, talvez inadvertidamente, no homem elementos emprestados da teologia católica relativos a Deus, à Trindade, aos Anjos, esquecendo a sempre válida distinção entre razão natural e razão iluminada pela fé, entre ciência filosófica e ciência teológica ciência, entre o conhecimento naturalmente adquirido e o conhecimento revelado. Talvez L. Feuerbach não tenha percebido que, para se reapropriar da imagem de si mesmo projetada em Deus, o homem se apropriou também daquilo que não lhe pertence, caindo de uma ilusão em outra. Esta atitude, que deriva de uma exaltação intelectual, no limite compreensível, mas, em última análise, enganosa e superficial. Negar que minha projeção mental de Deus é Deus não significa que Deus não existe, mas simplesmente significa que minha fantasia de Deus não é Deus. Observe que o divino de que alguns falam é uma projeção de suas aspirações, significa apenas que existem nos homens tais aspirações não significam que Deus não exista. Se uma pessoa projeta em mim o que pensa de mim, certamente não significa que eu não exista. De fato, os católicos se alinharam contra a confusão entre Deus e o mundo lutando contra a idolatria, desmistificando a natureza quando lhe foi dado o culto divino da latria, até mesmo oferecendo-lhe seres humanos como holocausto 3.3. Verdade e estados de espírito Continuemos o discurso empreendido acrescentando outros elementos ao processo de apreensão da verdade. Está no juízo que une sujeito e predicado, predica acidentes de substância: esta coisa é uma mesa. Em particular, pretendemos agora nos referir ao consentimento. Em virtude desse elemento, pertencente à esfera da reflexão, a razão dá consentimento ao que aprendeu anteriormente. O próprio São Tomás afirma: «é preciso considerar dois atos da razão: um pelo qual aprendemos a verdade sobre algo (...); o outro é o ato pelo qual a razão se ausenta daquilo que aprendeu» (Somma Theologiae, I-II, q.17, a.6). No caso dos primeiros princípios, o consentimento é inevitável. É o caso das verdades autoevidentes, quoad nos, com respeito a nós. De fato, que Deus existe é uma verdade auto-evidente quoad se, em si, mas não com relação a nós, que não o vemos; para nós, o fato de que Deus existe deve ser provado, é uma evidência mediada e não imediata, porque conhecemos a realidade finita e criatural por meio da sensibilidade e do mundo da natureza. O mesmo não acontece quando a relação entre sujeito e predicado não é tão clara, de modo que o assentimento tem um caráter dito discricionário. Isso é particularmente importante porque destaca o papel da vontade na economia do processo de conhecimento, além de nos deixar claros os possíveis estados de espírito diante da verdade: certeza, dúvida, opinião, fé e erro . A certeza A certeza é, 'in primis', aquele estado psicológico subjetivo que adere firmemente e sem hesitação a uma verdade que exclui qualquer dúvida. Então pode-se definir evidência como a presença de uma realidade que se dá de forma clara e inequívoca. No entanto, isso não significa que certeza e verdade se identifiquem, mesmo que estejam intimamente ligadas. Às vezes, de fato, pode-se convencer e acreditar com certeza que uma falsidade é a verdade, sem contar as tentativas de fundamentar a verdade na própria certeza, de que são exemplo as claras e distintas idéias cartesianas. E ainda se pode acrescentar quanto à certeza que tem uma certa gradualidade em função da diversidade dos campos do conhecimento e do tipo de acontecimentos e realidades que se conhecem. Por exemplo, no caso de um evento contingente, que deve essa característica à presença da matéria como princípio de identificação numérica, bastará que tenha ocorrido na maioria dos casos para ter um grau mínimo de certeza. Mas o importante é ter identificado nuances de certeza, por assim dizer, que eliminem a fronteira artificial estabelecida pelo cientificismo, entre a verdade objetiva (que seria trazida à luz pelo próprio método científico, aplicando-o indevidamente fora de seu campo descritivo experimental ; aplicação incorreta que envolve a redução ingênua do verdadeiro ao que é quantificável pelo homem) e o questionável, os dois únicos níveis em que se dividiria a realidade cognoscível. A inadmissibilidade de tal dicotomia também é atestada pelo fato de que não apenas a filosofia clássica, mas também alguns filósofos contemporâneos apontam a presença de um "claro-escuro intelectual" dentro do qual se mover. Esta imagem nos parece indicativa da veracidade de nosso discurso. É claro que o conceito de ciência, do que é ciência, deve ser revisitado porque ainda hoje o método científico se confunde com o método físico-químico-matemático das ciências experimentais. Isso gera confusão e ambiguidade entre campos de trabalho diferentes, mas de igual dignidade e rigor científico. Em outras palavras, pensamos que uma verdade é tal na medida em que é subjetivamente certa para nós expressa em fórmulas matemáticas, confundindo a certeza, a sensação de segurança que ela gera, com toda a verdade que, ao contrário, é muito mais complexa do que uma fórmula simples. Então, por vezes, a certeza é infundada, ou acaba por sê-lo à luz de novas e reais descobertas. A verdade transcende a ciência do homem, e todas as ciências, da botânica à teologia natural à teologia sobrenatural, têm direito à dignidade de ciências e devem respeitar seu método aplicando-o adequadamente em seu âmbito ao objeto de estudo. Juntos, eles contribuem para o bem comum, para o progresso e o desenvolvimento da civilização. A duvida Voltando aos outros estados da mente, podemos prosseguir definindo a dúvida. Caracteriza-se como um estado psicológico em que o intelecto oscila entre a afirmação e a negação de uma proposição, sem pender para uma ou outra alternativa. Para sair da dúvida é correto suspender o julgamento e estudar melhor o problema, consultando especialistas na área em que ocorreu a situação. A dúvida pode ser usada para um conhecimento ou experiência mais aprofundados, mas é um estado de espírito antinatural para sair o mais rápido possível para que não se torne um álibi para não assumir suas responsabilidades éticas e científicas. A opinião A opinião, que em si é um juízo relativo ao contingente, nunca ao necessário, consiste no assentimento à verdade de um lado da contradição com o temor de que a verdade, porém, esteja do lado oposto. Neste caso, o intelecto não dá o assentimento pleno que caracteriza a certeza, mas é apenas a vontade, em última análise, que orienta uma das partes. Como nem tudo é contingente, nem tudo é discutível. Se tudo fosse questionável não haveria ciência. É importante não confundir o certo com o questionável, aliás se há uma certeza baseada na evidência não há opinião. Muitas vezes acontece que a opinião a que se inclina é considerada certa, confundindo-se "nossos desejos com a realidade a que devemos nos ater". A 'doxa', conhecimento instável, deve, se possível, tornar-se uma episteme, conhecimento certo e estável que culmina na 'sophia', a plenitude do conhecimento que nunca é totalmente possuído, sempre cobiçado. A fé Também no caso da fé é a vontade que desempenha um papel determinante, com a diferença, porém, de que não há medo de que a verdade esteja do lado oposto. Estamos diante de uma determinação de vontade muito mais forte, motivada pelo testemunho e autoridade de outrem, de evidente credibilidade. Uma distinção deve ser feita aqui entre a fé humana e a fé como uma virtude sobrenatural, um dom gratuito de Deus. Na fé sobrenatural há, porém, o assentimento e a livre adesão do homem de fé, que deve, portanto, entender os termos das coisas que lhe são propostas para crer, deve ter uma razão baseada em evidências sensatas quanto à credibilidade de quem transmite as coisas a ele acreditou, a testemunha deve ser confiável; então, se o dom da luz da fé, um dom divino, é aceito, o intelecto é iluminado para acolher a revelação divina e a vontade de aderir firmemente aos conteúdos da fé, verdades que transcendem as capacidades da natureza humana. Há um acordo entre a razão e a fé, segundo a qual a fé, se não for um fideísmo fanático, pressupõe uma razão correta e bem consciente dos motivos de credibilidade que tornam mais racional aquele que a aceita do que aquele que a nega. Um filosofar inteligente orienta e abre à fé, como aconteceu ontem com Agostinho, hoje com E. Stein, J. Maritain e tantos outros filósofos e cientistas: "Entendo para crer e creio para compreender". Certamente a fé supera a natureza e a razão humana, se é verdadeira fé sobrenatural, mas em todo caso sempre a pressupõe, a graça aperfeiçoa a natureza não a destrói nem a enfraquece. O erro O erro consiste em afirmar o falso como verdadeiro. Isso não é falta di ciência, ou seja, a ausência de conhecimento, nem ignorância, ou seja, a ausência de um conhecimento para o qual se tem uma aptidão natural ou um conhecimento que se deveria e poderia ter. O erro e a falsidade daí decorrente colocam-se no oposto da verdade, pelo que se esta for definida como uma adequação, será uma não adequação do intelecto à realidade, ao ser da coisa. O devido ajuste não ocorre no intelecto. Isso não ocorre porque o intelecto não funciona, mas porque ele é impedido em algo de cumprir adequadamente sua função. De fato, a falsidade nunca se encontra na realidade, mas sempre no funcionamento defeituoso do pensamento devido, por exemplo, à falta de órgãos dos sentidos, a ligações entre ideias que não são logicamente coerentes, mal conectadas entre si ou não atribuíveis às coisas fora de nós como nós mesmos afirmamos. A falsidade é falada em nossa mente, ela tem uma realidade no pensamento defeituoso: se eu disser que o homem tem asas, não entendo a realidade devido à confusão entre o homem e o pássaro, enquanto se eu disser que o homem tem pernas para andar, eu diga a verdade e aí está o homem que anda. Por isso a verdade muitas vezes não é reconhecida por falta de vontade sincera de pesquisar, preguiça ou outros motivos, em muitos casos, viáveis. A verdade propriamente assenta-se no juízo verdadeiro que o homem exprime na sua mente como uma adaptação à realidade das coisas fora de nós e dentro de nós. O erro, portanto, é uma privação, não tem existência positiva no ser; ninguém conhece bem o falso, mas na realidade não conhece o verdadeiro. Como saber que 2+2=5? Na abstração das essências não há erro, ela é sucessiva e per accidens. A inteligência por si só não erra. Às vezes nos abandonamos voluntariamente às aparências, com um erro culposo. Às vezes, por presunção, alguém quer julgar sem provas. A causa do erro é não querer ver todos os aspectos de um problema; a vontade então força a inteligência. Por essas razões, a formação ética e moral do estudioso é de fundamental importância; sua vontade deve ser forte e exercida na virtude, caso contrário, seu conhecimento muitas vezes será cheio de lacunas, superficial, incompleto ou mal utilizado, inteligência e todo homem mal governados.
3.4. Conclusão sobre a relação razão-fé
Ter mencionado a fé nesta última página obriga-nos a ligar brevemente o nosso horizonte, que definimos como a confiança na possibilidade de conhecer, com o da fé. Pretendemos mostrar como esses dois aspectos estão intimamente ligados, inspirados nas palavras do Papa João Paulo II, em Fides et Ratio. Aqui emerge uma clara consciência da circularidade entre ciência e fé, de modo que a fé pode encorajar a ciência, entendida em sentido amplo, a conhecer a verdade. Uma verdade que o Papa, filósofo e teólogo, define como "total e definitiva", em si mesma, não no sentido que um homem possa esgotá-la; uma verdade que não corre o risco de se perder "nos aspectos particulares e relativos da realidade", porque também o particular é verdadeiro na sua especificidade, mas deve estar ligado ao geral. A filosofia, naturalmente incluída nesta ideia de ciência, terá assim de assumir a conotação de um conhecimento “autêntico e verdadeiro” – não relativo como uma simples opinião – que ilumina o sentido e a finalidade de outros saberes, justamente denominados ‘particulares’ . Precisamos superar criticamente tanto a teofobia (medo de Deus, de um Deus transcendente e pessoal) de um Voltaire quanto a "verdadefobia" (medo da verdade, como se fosse um constrangimento; e é, mas no sentido que permite ao homem ser livre para ser o que é, quebrando o delírio de omnipotência) do homem contemporâneo, para vencer o medo de pensar, e de pensar até às últimas consequências; não apenas imaginar viver, mas realmente viver, aceitar os limites que isso implica, aprender a nadar nadando. Só assim a razão poderá atingir aqueles "preambula fidei" que estão no limite da fé, aliás incluídos nas próprias verdades da fé, e que são o ápice da especulação filosófica e sapiencial: a existência da alma humana, a existência de um espírito imaterial e incorruptível que pode ser alcançado por introspecção a partir das operações que o homem realiza, usando a inteligência e a vontade, a existência de um princípio de ato puro, de onde provém tudo o que tem o ser, mas não derivado de nossa mente mas da análise cuidadosa das características das coisas que vemos no mundo em que vivemos, da sua inegável contingência e, portanto, não auto-referencialidade.
É útil pensar não que a fazenda está sendo assimilada pelo diant, 360 graus; por que excluir o conhecimento humanista, o conhecimento teológico ou o conhecimento filosófico do nível do conhecimento científico? Às vezes, o significado do termo "método científico" deve ser revisitado, então, para falar a verdade, um cientista que usa experimentação e química físico-matemática certamente não pode ignorar sentimentos externos e a relação com a realidade, dependendo como qualquer outro da ciência filosófica da memória aristotélica do primeiro princípio; O objeto material da ciência é comum, o objeto formal, o ponto de vista, muda, trazendo cada ciência ao seu próprio método, mas o método dos métodos pertence apenas à filosofia, que faz experimentos com a ajuda das ciências físicas e do trabalho químico. .como condições e controladas pela filosofia. Perdida esta, perse-se o controle e as ciências não servem mais ao homem, tornam-se uma arma potencialmente perigosa, pior ainda se caírem nas mãos de uma filosofia serve como uma ideologia.
4. Uma filosofia do conhecimento e do senso comum
Esta parte final do nosso dia tem um assunto muito importante na filosofia realista. Estamos a aludir ao senso comum que iremos primeiro apresentar no seu conhecimento geral e no seu sentido propriamente filosófico, voltando o que foi dito até aqui; mais tarde poderemos explorar os problemas usando o texto de Antonio Livi, Uma filosofia do senso comum, o que podemos fazer, faremos uma breve introdução.
Para fazer uma síntese, o melhor é partir das premissas da discussão aqui compreendida, ou se preferir, uma unidade almejada pelo homem com o mundo, com Deus, com os forasteiros que acreditamos poder ser educados com uma abordagem autêntica de o problema do conhecimento, com todas as suas implicações, certamente sentidas, existenciais. Esta abordagem, baseada na unidade psicofísica do homem, distancia-se do modelo cartesiano que, ao contrário, relega o homem a um dualismo mente-corpo e a um mecanismo para o qual res cogitans e res extensa aparecem claramente distintos e separados. Respeitados, vemos como fazer res implica uma observação prévia do destino daqueles 'res sunt', ou seja, o destino de sermos o que somos, da mesma forma que, como coisas, participamos. Uma filosofia realista baseia-se no ente, considerando que tem sido, apurado pelos sentidos, não na ideia de ser, perigo da ambiguidade - vício originário de muita filosofia que não define aquilo de que fala.
A modernidade partiu de uma ideia de realidade, mais do que da própria realidade, em direção a um fundamento inicial absoluto, cuja busca tem ignorado os limites existenciais do homem. Na verdade, ele nasceu em um mundo já dado, acima do qual não pode pretender elevar-se estabelecendo-se como fundamento do conhecimento.
Portanto, são válidas as palavras de Aristóteles segundo as quais "cabe à experiência fornecer os primeiros princípios concernentes aos vários objetos do conhecimento científico" (Analitici Primi, I, 3046 a 17-25) e é "impossível chegar a proposições universais exceto através da 'indução' (Analitici Secondi, I, 1381a 38-81 b5). A verdade não é aristotélica, platônica, popperiana... se é verdade é verdade então o homem só age como um veículo inteligente que a descobre em proveito de todos, não é o dono da verdade.
Um capítulo inteiro já foi dedicado ao critério orientador da indução, ou seja, a evidência que é antes de tudo sensível antes de se expressar no intelecto. Acrescentamos a título de esclarecimento que as citações de Aristóteles não são acidentais, mas destacam a tarefa do filósofo que, ainda segundo o próprio Einstein, tratando-se da mãe de todas as ciências, ilumina o conhecimento, em sua totalidade, seja científica ou humanística , com a consciência de princípios essenciais deduzidos da realidade. Como isso é possível?
É aqui que desempenha seu papel o ‘sentido comum’, longe de ser identificado com o senso comum, ele se apresenta como uma faculdade possuída por todos, capaz de tornar visíveis os primeiros indícios da realidade de forma incontestável. Uma primeira definição desta faculdade foi dada por São Tomás que, consciente da profunda unidade da experiência, viu nela o elo de ligação entre todas as fases do conhecimento: entre o conhecimento sensível e o intelectual; entre percepção sensível e 'simplex apprehensio'; entre as primeiras operações do intelecto e o juízo (que se refere ao sujeito e ao predicado); e ainda entre 'intellectus' e 'ratio' (aqui entendido como raciocínio). Fica claro, portanto, que a relação do homem com o mundo é integral, sem conhecer compartimentos estanques e completamente autônomos, ainda que distintos.
É necessário esclarecer a beleza, a profundidade e a riqueza da noção universal do ser. Por mais grandiosas e admiráveis que sejam as perspectivas e visões que os povos e culturas têm visitado, nenhuma delas escapa, e sob qualquer ponto de vista, às leis do ser que marcam as suas forças e fraquezas. A palavra 'ser' é dita de muitas maneiras e inclui tudo: toda realidade da experiência, para o nosso limite, 'é' mas não é 'ser', ou seja, todo ente tem ser mas não é ser. Perde-se o horizonte no infinito. Portanto, tanto quanto sabemos, ser é um ato, uma perfeição das coisas, um ato universal e total, inclui tudo o que as coisas são. Ser é o ato constitutivo e mais radical, o ato primeiro e mais íntimo da entidade, que de dentro dá ao sujeito toda a perfeição.É um ato intensivo, não é um atributo vago e indeterminado, não é a existência; este termo - existir - indica o fato de que algo é dado, existe.
O ser vem primeiro e funda a existência, da qual nos tornamos conscientes. O conceito de entidade é a noção incluída implicitamente em todo conceito, portanto é a primeira noção adquirida em nossa inteligência. Essa noção de entidade é inicialmente possuída de forma imperfeita e se aperfeiçoa com o decorrer da experiência. A noção de ser não é um gênero, porque nenhuma diferença pode ser acrescentada a ela que não esteja já contida nela. Tem, como noção, a maior extensão e o maior entendimento. Indique o que é comum a todos. Pois mesmo os aspectos diferenciadores das coisas 'são'. Por fim, a noção de entidade é analógica porque é predicada de todas as coisas em um sentido parcialmente igual e parcialmente diferente. Ser é a perfeição que admite a maior variedade de realizações; portanto, a noção de entidade é adequada para todas as realidades analogicamente.
Esta perspetiva, que surge na esteira das intuições tomistas, define a ciência na sua componente objetiva, que é aquela imediatamente referida à realidade, e na sua componente subjetiva de «habitus primorum principiorum», ou seja, como a capacidade de usar corretamente os primeiros princípios, em a perceber as certezas primárias da experiência, enquadrando-as numa estrutura lógica de necessidade racional.
Vemos como é dada ao sujeito a possibilidade de reconhecer e aplicar os princípios, sem criá-los. Se fossem criados por nós, o conhecimento teria seu ponto de partida e sua culminância no próprio sujeito, na história tudo encontraria plena realização, contra todas as evidências. Em outras palavras, a tarefa do sujeito cognoscente é muito mais rica em perspectivas do que qualquer imanentismo preconcebido.
A dubitatio também pertence ao realismo tomista, que alguns intérpretes, por outro lado, compararam à dúvida metódica cartesiana. Estes autores, em apoio à sua tese, citam o seguinte trecho do Comentário à Metafísica: «A esta ciência, que é responsável pelo estudo universal da verdade, compete também a dúvida universal sobre a verdade» (In III Metapysicorum, lect. 1 , n.343). Na realidade, esta interpretação revela-se errónea, já que em São Tomás não é possível encontrar qualquer intenção de questionar a existência de todas as verdades. Pelo contrário, o significado desta 'dubitatio' é entendido se este termo for traduzido com 'aporìa', ao invés de 'epoché' que se refere a uma dúvida que suspende a certeza. No primeiro caso, de fato, faz-se justiça à instância metodológica tomista, que, referindo-se à aristotélica, não pretende colocar entre parênteses as certezas fáticas, mas proceder segundo um método completo e prudente que leve em conta os problemas e dificuldades ("problema" é propriamente a tradução de 'aporia'). O termo latino 'dubitatio' indica, portanto, a posição do problema, para o qual São Tomás incluiu nas tarefas devidas à filosofia como ciência a de lidar com o problema da verdade em toda a sua universalidade.
No fundo, daí decorre que, mesmo quando se quis proceder problematicamente, não faria sentido isolar o senso comum como um sistema orgânico de certezas primárias, relativas ao mundo real que vivenciamos, a partir do qual podemos construir hipóteses possíveis .
Após essa especificação mais aprofundada sobre o senso comum, julgamos oportuno um breve excursus sobre a evolução que o termo teve ao longo da história, a fim de enriquecer ainda mais a discussão.
Digamos desde já que era originalmente válida a definição de Aristóteles, que via o senso comum como 'koiné dynamis' ('poder comum') e lhe atribuía a função de sentido interno na dinâmica da percepção, ou seja, a capacidade de unificar os dados sensíveis fornecidos pelos sentidos externos. Em última análise, tratava-se de uma visão psicológica diferente daquela que mais tarde aparecerá em alguns filósofos modernos e contemporâneos. Aludimos a Lorenzo Valla, Giambattista Vico, Thomas Reid, de certa forma ao próprio Kant, assim como ao espanhol Balmes ou ao francês Lagrange, este último autor de um livro de bom senso. Em particular, Vico define o termo com uma certa riqueza conceptual nas suas primeiras obras latinas: «sensus communis, ut omnis prudentiae, ita eloquentiae regula est» (De nostri temporis studiorum ratione, in Opere, editado por Gentile-Croce-Nicolini, Laterza Bari 1914-1953, Vol. I, p. 81). O sentido mais difundido do termo, que se tornou herança da cultura filosófica, deve-se ao filósofo napolitano, que vê no senso comum a primeira regra de uma filosofia sã. Além disso, só podemos ter uma atitude crítica em relação ao julgamento do senso comum segundo o qual não se trata de uma faculdade humana, mas de uma forma de descrever as crenças de um povo em um momento histórico-cultural específico, a ser derrubado quando chegar a hora, substituí-los por outras atitudes culturais especialmente criadas. Confunde-se assim o senso comum com o sentimento genérico segundo as modas provisórias que sustentam as tendências dominantes, por vezes induzidas artificialmente por escolhas ideológicas, políticas ou outras.
No entanto, nossa crítica não é o resultado de uma distorção prejudicial. Com efeito, o bom senso pode hoje constituir o terreno para a reconstrução da unidade e da harmonia entre as ciências em diálogo para um objetivo comum. O senso comum, assim entendido, não é um sentimento nem uma mera percepção sensorial, “mas um julgamento intelectual ditado pela evidência da realidade, não apenas sensível, mas também metafísica, até os princípios especulativos e práticos que caracterizam a sabedoria de todos os homens e ... de todos os tempos» (Antonio Livi, Filosofia do senso comum, Ares Milano 1990, p.19).
Disto se segue que nenhum homem é barrado neste caminho. «O senso comum é colocado ao nível da formulação da experiência comum através de juízos de evidência imediata e de evidência mediada, formulados no final de uma inferência, isto é, de um raciocínio, ainda que espontâneo» (op. cit., p. 33). Livi o expressa bem por meio de dez teses (na obra citada, ver páginas de 37 a 40) que o definem como um sistema orgânico de julgamentos necessários, uma herança constante e universal, concernente, em uma unidade noética indissolúvel, ao factual, subjetivo e realidades objetivas, e o universal dos primeiros princípios especulativos e éticos. A certeza que o senso comum oferece é de qualidade superior à científica, aliás, constitui sua premissa e condição de possibilidade. É uma certeza de evidência direta e universal, portanto incondicional e absoluta.
Relembrando o que já foi demonstrado, trata-se desse patrimônio de verdades evidentes situado no nível pré-científico, como o primeiro princípio, não porque sejam menos verdadeiros que as verdades científicas, ao contrário porque são o fundamento da próprias verdades científicas. Pode-se demonstrar que quem nega as verdades do senso comum, assim entendido, e sua existência, cai em contradição ao anular a negação e reafirmar a existência desse patrimônio. A filosofia e a ciência nada mais fazem do que iluminar e orientar o homem no mundo, em continuidade e referência com as verdades do senso comum. Este é o caminho percorrido pelos primeiros filósofos-cientistas até hoje como um rio subterrâneo, que torna fértil o solo da pesquisa, e que ressurge graças ao trabalho paciente de grandes pensadores.
«A filosofia do senso comum é, pois, a própria filosofia tão autoconsciente como a ciência» (op. cit., p. 210). «A filosofia do senso comum é, pois, a 'filosofia como tal' que se encarrega racionalmente de identificar os pressupostos da sua própria investigação científica, tendo-se tornado rigorosamente consciente da 'necessidade lógica absoluta', decorrente da própria estrutura da realidade, de reconhecer tais pressupostos e respeitá-los para não cair em contradição consigo mesmo. E as conclusões desta fase ou momento da filosofia são que os pressupostos da crítica são as certezas que fornecem o 'objecto' e o 'critério' da própria crítica» (op. cit., p. 213).
*Artigo extraído de Fundamentos da dignidade da pessoa (caderno IPE), a c. por S. D'Ippolito e C. Circelli, Loffredo, Nápoles 2006
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